Em Lábrea, município do sul do Amazonas com cerca de 47 mil habitantes, a conversa na feira de maio era a mesma em quase todas as barracas: a chuva que deveria ter chegado em março demorou, o rio ficou baixo por semanas a mais e a mandioca plantada no ciclo antigo não rendeu como antes.
Passei oito dias na região ouvindo agricultores familiares, técnicos da extensão rural e professores que cruzam registros escolares com memória oral. O quadro que emerge não é de catástrofe instantânea, mas de ajuste forçado: calendários agrícolas herdados de pais e avós estão sendo reescritos ano a ano, enquanto sistemas de abastecimento de água pensados para outro clima mostram limite.
O que dizem os dados
Segundo boletins do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o sul do Amazonas registrou déficit de chuva acumulado entre dezembro de 2025 e abril de 2026, com picos de estiagem em março — mês em que, historicamente, a região já deveria estar na transição para período chuvoso mais intenso.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) alertam que eventos de seca no sul amazônico têm se tornado mais frequentes e prolongados nas últimas duas décadas, com impacto desproporcional em agricultores que dependem de chuva direta, sem irrigação. Eles evitam atribuir um único evento ao aquecimento global, mas apontam tendência consistente com modelos climáticos regionais.
Na roça de dona Francisca
Francisca Lima, 61 anos, planta mandioca, feijão e hortaliças em um lote de cerca de quatro hectares a 12 km do centro de Lábrea. Em 2024, ela colheu o suficiente para vender farinha em duas feiras mensais. Em 2026, a colheita cobriu apenas consumo próprio e parte da família.
— Eu plantei no mesmo mês de sempre — ela diz, apontando para fileiras com folhas amareladas. — O vizinho disse para esperar a chuva de abril. A chuva veio fraca.
O técnico de extensão rural Valdemir Souza acompanha 38 produtores na zona rural. Ele relata que muitos estão testando mudança de época de plantio e, em alguns casos, diversificação para culturas com ciclo mais curto. — Não existe receita única — ele explica. — O solo muda de um lado para o outro da estrada.
Água para beber, água para plantar
Em três comunidades rurais visitadas, poços rasos secaram parcialmente em abril. A prefeitura enviou caminhões-pipa em duas delas, mas moradores relatam intervalos de até dez dias entre entregas. Na escola estadual de uma dessas comunidades, a diretora suspendeu aulas por dois dias por falta de água potável nos bebedouros.
Conversamos com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que citou "dificuldades orçamentárias" e prometeu incluir três poços artesianos em projeto de convênio estadual ainda sem data de início.
Sustentabilidade sob pressão
Alguns agricultores consideram irrigação por bomba a partir de rios, mas o custo de combustível e o risco de salinização em áreas próximas à várzea freiam investimentos. Cooperativas locais discutem acesso a linhas de crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), mas burocracia e exigência de documentação afastam produtores sem assistência técnica regular.
O professor de geografia da escola estadual, Marcos A., mantém um caderno de registro de chuvas com alunos do ensino médio desde 2019. Os números mostram maior variabilidade nos últimos três anos — não apenas menos chuva, mas concentração em poucos eventos intensos seguidos de longos períodos secos. — Os alunos comparam com o que os avós contam — ele diz. — A diferença fica visível.
O que vem agora
Em maio, chuvas isoladas aliviaram parte da região, mas técnicos alertam que um mês de precipitação não compensa déficit acumulado em solos arenosos. Francisca planeja plantar metade da área em julho, se o solo recuperar umidade. — A gente aprende a adaptar — ela conclui. — Mas adaptar cansa.