São seis horas de barco desde Cametá até a vila onde dona Conceição, 58 anos, mora com o marido e três netos. Não há estrada. Não há posto de saúde permanente. E, nas últimas semanas, a cheia do rio subiu mais cedo do que o esperado — obrigando a família a desmontar parte da varanda e transferir a horta para terreno mais alto.
Visitei três comunidades do Baixo Tocantins em maio, acompanhada do fotógrafo Raimundo Lima, que nasceu na região. Nosso objetivo não era registrar uma catástrofe, mas entender como famílias constroem rotina quando o Estado chega em doses irregulares — e como o rio, a floresta e a roça continuam sendo os eixos que organizam o tempo.
O calendário da cheia
Na vila de São João do Aruá, com cerca de 120 famílias, o professor Edson explica que a escola comunitária funciona em um galpão de madeira quando a água baixa. Na cheia, as aulas migram para uma estrutura flutuante amarrada a pilares — improvisada há três anos com ajuda de pais e de uma ONG de Belém que não aparece mais.
— A gente se vira — diz Edson. — O problema é quando a cheia atrasa a colheita da mandioca e as crianças ficam sem merenda porque o barco da prefeitura não consegue atracar.
Conceição, que todos chamam de dona C., mostra o quintal alagado. Ela planta hortaliças há vinte anos e, pela primeira vez, transferiu o canteiro para uma área aberta na encosta, a dez minutos a pé pela mata. O caminho é estreito, com raízes expostas e formigueiros. — Antes a gente sabia o mês da cheia — ela conta. — Agora o rio sobe e desce fora de hora.
Roça, pesca e o que sobra
A economia local combina agricultura de subsistência, pesca artesanal e, para algumas famílias, a venda de açaí e castanha em feiras de Cametá. O acesso ao mercado depende de motor de popa, combustível e condições do rio. Quando a estiagem prolonga, como ocorreu no verão passado, o custo do frete dobra.
João Batista, 44 anos, pescador, mostra o estoque de farinha de mandioca na casa. — A roça alimenta a gente. O peixe dá um dinheiro, mas o tucunaré mudou de lugar — ele aponta para o mapa mental que carrega na cabeça. — Tem menos peixe perto da vila. A gente vai mais longe, gasta mais gasolina.
Saúde e assistência
O agente comunitário de saúde visita a vila uma vez por mês, quando o barco da Secretaria Municipal de Saúde consegue completar o roteiro. Gestantes precisam ir a Cametá para ultrassom — viagem de um dia inteiro. Em fevereiro, uma criança de cinco anos foi transferida de emergência por helicóptero após quadro de desidratação; a família só soube do protocolo porque uma vizinha tinha experiência com atendimento em Altamira.
Conversamos com a coordenação regional de saúde por telefone. Eles confirmam déficit de profissionais e barcos insuficientes para o tamanho do território. Prometem ampliar o roteiro em julho, mas não detalharam quantas comunidades serão incluídas.
O que fica
Na terceira vila, Boa Esperança, a professora Maria Helena organiza um grupo de mulheres que troca mudas de plantas medicinais. — A gente não espera só do governo — ela diz. — Mas quer ser ouvida quando decidem o que fazer com a floresta em volta.
Em junho de 2025, um projeto de regularização fundiária avançou em Cametá, mas moradores das vilas relatam que a documentação exigida é difícil de obter sem deslocamento. Sem título, o acesso a linhas de crédito rural fica bloqueado.
Ao final da visita, dona Conceição oferece café coado na hora e pede uma coisa: — Conta que a gente existe quando o rio baixa também. Não é só quando alaga.