Às 5h40 da manhã, o som que domina a base de campo perto de Carauari é uma mistura de grillos, araras e o motor do barco que vai levar a equipe para a trilha L6. No grupo estão dois pesquisadores da UFAM, três moradores contratados como parceiros de campo e eu, acompanhando o terceiro ciclo de monitoramento de mamíferos de médio porte em uma área de uso múltiplo do médio Juruá.

O projeto existe há quatro anos e tenta algo que a ciência amazônica ainda faz pouco: tratar o conhecimento de quem vive na floresta como dado comparável, não como curiosidade etnográfica. Nem sempre funciona. Mas quando funciona, os resultados mudam a forma como se leem mapas de biodiversidade.

Paisagem de rio e floresta no entardecer amazônico
O médio Juruá concentra áreas de várzea, igapó e terra firme com alta diversidade de espécies. Foto: Eduardo Moraes / Verde Horizonte

Armadilhas fotográficas e olho treinado

Os pesquisadores instalam câmeras automáticas em trilhas de animais identificadas com ajuda de Sebastião, 52 anos, que nasceu na região e trabalha como guia há mais de vinte. Ele aponta para marcas no barro — um tamanduá passou ali na noite anterior, diz. A câmera confirma duas horas depois, quando a equipe revisita o ponto.

— O artigo científico vai chamar de Tamandua tetradactyla — comenta a bióloga Fernanda Prado. — O Sebastião chama de fura-bolo e sabe em que época do ano ele desce para a várzea. Os dois registros juntos valem mais do que separados.

Em abril, o grupo publicou um artigo preliminar descrevendo sobreposição entre espécies catalogadas por moradores e espécies captadas pelas câmeras. A taxa de concordância foi de 78% para mamíferos de médio porte — alta, mas não perfeita. Parte da diferença vem de nomes locais que agrupam espécies distintas; outra parte, de animais que evitam trilhas usadas por humanos.

Quem ganha com o dado

Na comunidade de São Raimundo, a professora indígena Luciana M. participa das oficinas de identificação de pegadas com os estudantes do ensino fundamental. — As crianças aprendem o nome científico e o nome que a avó usa — ela explica. — Mas queremos saber para que serve o monitoramento depois que o projeto acaba.

É uma pergunta justa. Projetos de ciência na Amazônia têm histórico de extrair dados e publicar em revistas internacionais sem retorno claro às comunidades visitadas. O coordenador do projeto, professor André Luiz, reconhece o problema: — Estamos estruturando um relatório anual em linguagem acessível e devolvendo às associações locais. Ainda é insuficiente, mas é um começo.

Comunidade ribeirinha próxima à área de pesquisa
Comunidades ribeirinhas do Juruá participam como guias e técnicos de campo no monitoramento. Foto: Eduardo Moraes / Verde Horizonte

Ameaças que o sensor não vê

Na segunda semana de expedição, moradores relataram aumento de barcos de madeireiros ilegais em afluentes próximos. As câmeras não captaram desmatamento — elas monitoram fauna —, mas Sebastião mostrou trilhas abertas recentemente a dois quilômetros da base. A equipe georreferenciou o local e encaminhou as coordenadas ao órgão ambiental estadual. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno público sobre fiscalização.

Para Luciana, biodiversidade e soberania alimentar estão ligadas. — Quando a floresta é cortada sem consulta, some o murici, some o camu-camu, some o lugar onde a gente pesca — ela diz. — O paper bonito não enche panela.

Sustentabilidade com rosto

O projeto financia três moradores como técnicos de campo durante o período de coleta. O valor não substitui renda de extrativismo ou pesca, mas ajuda em meses de entressafra. Há conversa sobre criar uma cooperativa de ecoturismo científico, em que visitantes pagam para acompanhar expedições curtas — modelo que funciona no Baixo Rio Branco, mas exige investimento em infraestrutura que ainda não existe em Carauari.

Ao entardecer, na volta de mais um dia de trilha, Sebastião fuma cachimbo na proa do barco e resume: — Ciência boa é a que escuta. Ciência ruim é a que só tira foto e vai embora.